sábado, 18 de abril de 2009

Capitulo I - A Primeira Noite

A escuridão envolvia um vulto frio e inanimado, corpo aninhado no chão. Fios de prata deslizavam por entre as pedras da calçada, algum tempo depois de terem caído dos céus.
Um gélido vento sussurrou aos ouvidos daquele estranho, sem saber se ele o ouviria. Mais certo era estar morto, abandonado às ruas da cidade, estranhamente vazias, mesmo para aquelas horas da noite.
Mas uma expressão no seu rosto respondeu àquela voz que corria as ruas. Bastou um arquear de sobrancelhas para se dar como vivo. Cerrou os lábios e os olhos abriram-se, as janelas do ser receberam o pouco que o exterior lhes tinha para dar.
Com algum esforço, o estranho sentou-se. Tentou-se lembrar: porque estava ali, o que lhe acontecera, o que o esperava, o que fazer…
Pouca coisa alcançava a sua memória, fragmentos de recordações assomavam mas dificilmente se ligavam entre si.
Levantou-se e começou a andar. Sentia-se fraco, mas não tinha dores. Um receio crescente começava a tomar conta dele a cada passo. Não havia nenhuma razão para ter ficado estendido no chão senão por causa de um ataque.
Qualquer um o podia ter atacado, tinha tantos inimigos como pedras na calçada. Mas ele sempre fora mais forte que eles, mais rápido, mais eficaz. Adivinhava todos os seus passos, sabia que tinha nascido para os eliminar compulsivamente. Era o seu único talento, e era um dos melhores nisso. O ódio motivava-o; vivia para a noite porque era o seu campo de caça; vivia para os matar porque eram os seus inimigos mortais.
Mas, e se um deles o tiver atacado? Tinha de encarar a hipótese, mas nada apontava para a sua concretização; pelo menos era isso que a sua mente lhe dizia, ébria do controlo que sempre tivera na vida, de tudo e todos. Nada estivera fora do seu alcance, nunca…
Atrás de si, um outro vulto atravessou a rua onde se encontrava, à velocidade de uma rajada de tornado. Um movimento subtil, que ele bem conhecia… virou-se, então, muito rapidamente na sua direcção. O vulto misterioso parou a um metro dele e revelou-se.
Um rosto belo contorceu-se à luz fraca dos candeeiros. Era um sorriso radioso e vingativo, luminoso e lunar. A sua boca descerrou-se, soltando, irónico:
- Bem-vindo ao mundo das trevas, "caçador". Agora, curva-te perante o teu criador!
Os seus piores receios concretizaram-se.

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